quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O sonho

Quando fica em nossa casa, a Carolina dorme com a avó.
Hoje de manhã, depois de todos arranjados (o que leva o seu tempo, porque é preciso lavar e vestir, tomar o leite, ver desenhos animados, brincar um bocadinho), fomos levá-la à escolinha. Pelo caminho, a avó pediu-lhe:
- Tu esta noite tiveste um sonho. Conta à avó o que é que sonhaste.
Ela ficou calada.
- Eu vi que tu sonhaste – insistiu a avó.
Pareceu pensar um instante, como se tentasse lembrar-se. Por fim, arrumou a questão:
- Os meus olhos não viram nada.
- Pois é – disse o avô. – Quando nós sonhamos é como se víssemos as coisas, não é?
Acho que o avô tem razão. Esta noite não me lembro de ter visto nada, por isso não tenho nenhum sonho para contar.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Estão contentes?

Há alturas em que comer é um problema.
- És um pisco – diz o avô.
Da primeira vez ela ficou a olhar.
- O que é um pisco?
- É um pássaro pequenino, que come poucochinho.
As pessoas grandes, às vezes, são muito aborrecidas.
- Só um bocadinho de sopa, Carolina – teima a avó.
Porque é que os grandes são assim? Sempre a quererem que eu coma, mesmo quando não me apetece nada. Às vezes, nem sequer uma guloseima. O avô não insiste muito, mas a avó não desiste com facilidade.
- Só três colheres, vá.
E eu farta de saber que depois daquelas três a avó vai continuar a teimar:
- Só mais esta.
Ultimamente, tem sido uma ralação, pior que um pisco.
- Se não comeres vais ficar doente – diz a avó. – Nós ficamos muito tristes quando tu não comes, sabes?
O avô, à maneira dele, põe-se a ajudar à missa:
- Tens de comer muito, como o Popey, para teres força para brincar.
Ontem, a Carolina ficou connosco. Ao jantar, para nossa surpresa, comeu a sopa toda. E pela mão dela.
O avô e a avó fartaram-se de fazer elogios.
Então ela quis confirmar:
- Estão contentes?
E pela cara deles via-se que estavam mesmo contentes.
Depois comeu o resto. Quando acabou, foi direita ao aparador da sala, que tem uma gaveta muito especial – o avô pôs-lhe o nome de gaveta das delícias – e reclamou o seu prémio: um quadradinho de chocolate.
Ficámos todos de bem com o mundo.

sábado, 15 de novembro de 2008

O poço

Ao fundo do pátio, encostada ao muro, lá está a casota do motor que serve para tirar água do poço. A meio do pátio, uma tampa quadrada, pesada como chumbo e cheia de mistério. Tenho de saber.
- O que é isto, avô?
- É uma tampa.
- E o que tem ali?
- Um poço.
Olho para o avô e ele percebe que eu não percebo.
- É um buraco muito fundo onde tem água.
Já se percebe um pouco melhor, mas não chega.
- Quero ver, avô.
O avô hesita,mas acaba por me fazer a vontade.
- Está bem.
Vai à garagem remexer numa caixa e volta com uma coisa esquisita na mão, que parece uma tesoura, mas mais grossa.
- O que é isso?
- É um alicate.
E antecipa a resposta à pergunta seguinte, que eu não cheguei a fazer, mas ele adivinhou.
- É para levantar a tampa do poço.
O avô curvou-se, agarrou a tampa com aquela coisa esquisita e começou a puxar. Devia ser mesmo pesada, porque ele até ficou vermelho e no fim soprou com força. Depois agarrou-me muito bem com um braço à volta da barriga e disse:
- Vá, espreita.
Tão escuro! Não se via nada, só mesmo o escuro.
- Espera um bocadinho para os olhos se habituarem ao escuro.
Só passado um bocado é que comecei a ver, lá muito no fundo, qualquer coisa que brilhava um pouco. O avô explicou:
- É a água.
- Ui, tão fundo!
- Pois é. E é perigoso. Vamos pôr a tampa.
E o avô fechou outra vez o escuro naquele buraco tão grande que até mete medo.
A casa do avô Jorge e da avó São não é muito antiga, mas é do tempo em que ainda se faziam poços para se ter água em casa, porque (dizem eles) não havia outra, e sem a aguinha não se pode passar. Se não como é que havia de ser quando eu, por exemplo, tenho sede?
- Avó, quero água.
Ou quando quero lavar os dentes antes de ir para a cama?
- Se eu não lavar os dentes aparece a cárie, não é, avó?
Ou quando é preciso pôr água quentinha na banheira para eu tomar banho?
- Olha, avó, sou um peixinho!
Ou quando a avó vai ao tanque, debaixo do alpendre, lavar roupa, e eu quero ajudar?
- Também quero lavar roupa, avó...
Ou quando o avô quer regar as plantas dos vasos que estão nos pátios e se põe a encher de água um regador muito grande, quase do meu tamanho?
- Também quero regar, avô...
Felizmente há um regador pequenino ao pé do tanque. O avô põe-lhe um bocadinho de água e então eu já posso ajudar a regar as plantas.
Quando lhes ponho água, as plantas olham para mim, muito satisfeitas, dando um estalinho com a língua.
- Ah, que rica água! Com este calor estávamos mesmo cheiinhas de sede.
E espreguiçam-se ao sol, muito consoladas.
- Obrigado, Carolina.

sábado, 11 de outubro de 2008

O sol na cabeça aquece os tijolos

Tudo pronto para irmos passar um bocado da manhã à Costa Nova. A Carolina já está vestida, acaba de calçar as sapatilhas. Está um céu de trovoada, com algum sol mesmo assim. A avó lembra ainda, antes de sairmos, que é preciso levar o chapéu por causa do sol. E logo a pequenita, toda lampeira, afagada pela boa disposição que lhe traz o ir até ao parque infantil:
- Pois, temos de levar o chapéu para não apanhar sol na cabeça e não aquecer os tijolos.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Se tirares o chapéu és careca

Quis andar no baloiço. Fui empurrá-la (desta vez fui eu o requisitado). Não dispensou a companhia da sua boneca inseparável, a Matilde. Estava com uma bandelete a segurar-lhe o cabelo. A certa altura, meti-me com ela:
- Deixa-me pôr um bocadinho a tua bandelete.
Resposta pronta:
- Tu não precisas, és careca.
- Sou careca? Olha tanto cabelo.
E mexi no cabelo que se via abaixo do chapéu, na nuca, nas patilhas.
E logo ela, outra vez:
- Mas se tirares o chapéu és careca.

domingo, 8 de junho de 2008

A bandelete

Veio ter comigo. Camisola sem mangas, calções de praia, toda fresca na sua cara tão fresca. Parou diante de mim num sorriso rasgado e ficou assim, à espera que eu visse. Mas o avô não via nada, só o sol do sorriso. Por isso perguntou:
- O que é?
E foi ela que teve de dizer, apontando a bandelete que trazia no cabelo:
- A bandelete.
E girou, num trejeito muito feminino, antes de se afastar na sua deliciosa vaidade inocente.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Tu já és velho

Esta noite a Carolina dormiu cá. De manhã, já depois de todos arranjados, para tentar que ela se despachasse
(arranja sempre pretextos para demorar mais um bocadinho
- Quero água
- Quero bolachas
- Quero andar no baloiço)
disse-lhe:
- Vá, vamos embora. A avó tem de ir trabalhar, tu também tens de ir trabalhar(quando lhe dizemos
- A tua escolinha
ela logo
- Não é a minha escolinha, é o meu trabalho)
e o avô também tem de ir trabalhar.
- Tu já és velho, já não trabalhas. Ficas em casa.
Restou-me dar uma boa gargalhada.